quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

O tempo e a memória

- Meu Deus! Como ficamos velhos. – foi o que ela disse, tendo nos panos das faces expressões de assombro.
Por descuido, ou assomo e soma de circunstâncias, ela havia deixado passar muitos e muitos anos antes de voltar ao lugar onde vivera a infância e a adolescência. Jovem, fizera-se lançar ao mundo abraçada à causa profunda de uma alma nômade, e como os nômades, segundo os afectos do nomadismo, sempre fora de um lugar a outro, sem se fixar em lugar algum por muito tempo. Nesse ir adiante, entre inumeráveis conteúdos e expressões acumuladas com a existência, guardara na memória corpos e faces com os quais convivera até a adolescência, antes de lançar-se ao mundo.
Um dia, sem mais o que, vira crescer dentro de si inquietações trazidas por forte desejo de fazer o caminho de volta às suas origens. Permitiu a si mesma esse retorno, e o fez.
Chegada ao lugar onde nascera, e crescera até a juventude, viu que a paisagem do lugar pouco mudara. Os vinhedos, os extensos pomares e campos, praticamente eram os mesmos. O rio da sua terra natal seguia o mesmo curso de outrora, pelo leito cavado no vale entre as colinas que acolheram suas pegadas no passado. As casas do vilarejo e arredores, a maioria pintadas de branco imaculado, ainda eram as mesmas.
Não as pessoas. Estas envelheceram.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Sou dependente (continuação)



Reconheço. Sou quimicamente dependente.

E insisto em dizer que não reconheço alguém que não seja dependente da mesma química que me mantém. Pense em alguém isolado do mundo; deste mundo banal do nosso dia-a-dia, mundo esse cada vez mais mergulhado nas tramas da tecnologia e das interações globais, sociais. Melhor! Pense em alguém recolhido a um recanto no qual e do qual não tenha contato com pessoa alguma. Essa pessoa é tão dependente quanto eu sou. Então, você já deve ter percebido que eu tenho a você como alguém dependente quimicamente, tanto quanto eu.

Pois é. Eu, você, qualquer um: somos todos dependentes dessa bolota azul que ilustra esta postagem. Mesmo aquela pessoa da qual se diga que é a mais isolada do mundo, ela também é crucialmente dependente, pois, para viver, precisará comer, beber e se abrigar; e tudo isso é provido pela mesma bolota que me sustenta, e sustenta a você. Agora, eu, e você, provavelmente seremos muito mais dependentes, uma vez que estamos submetidos a interações complexas, o que nos torna uns pobres dependentes.

Neste exato momento, daqui de onde estou olho ao redor. Cercam-me quase que inumeráveis coisas; coisas que são coisas tanto quanto eu. A maioria das coisas que estão ao meu redor e para as quais eu olho, em algum momento tiveram a minha atenção, e foram tocadas por meu trabalho. Sim. A maioria dessas coisas está onde está, e estão como estão, porque dediquei a elas um pouco do meu trabalho; umas mais, outras menos, mesmo que em ínfimos fragmentos de tempo. E cada uma delas, antes de mim, foi tocada por trabalho de outras pessoas. Quantas pessoas? Não sei, e tenho certeza de que jamais o saberei.

Assim como começo a maioria dos meus dias, comecei em um determinado momento deste meu dia alimentando-me com uma fatia de pão, entre outras coisas no café da manhã. Essa trivial fatia de pão... Céus! Quantas pessoas trabalharam para que ela chegasse às minhas mãos, para depois se transmudar em moléculas da coisa que sou. Colhendo nomes e funções de trabalho em cada quadrante da cartografia da bolota azul que me sustenta, e indo longe no tempo, mesmo todos os anos restantes da minha vida serão insuficientes para que eu sequer me aproxime com alguma precisão ao número de pessoas que trabalharam para que essa fatia de pão chegasse às minhas mãos, e me alimentasse.

Por isso sou um dependente, quimicamente dependente do trabalho de um incontável número de pessoas, todas geradas quimicamente por essa bolota azul. E todas, quase, sequer imaginam que fizeram e fazem tanto por mim, e que o seu trabalho me sustenta.

Sou dependente do agenciamento maquínico social; dessa química que é orgânica e inorgânica, doida coisa que é. E para terror dos céticos, graças a Deus.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Sou dependente

A rigor, qualquer um é, e segundo a linha de pensamento aqui desenvolvida, possivelmente não há excluídos da dependência da qual falo. Na minha singularidade pode implicar o acontecimento de um contraditório, talvez um paradoxo. Reafirmo que sou dependente, e não me vejo como um radical em nenhum sentido.

Lá na juventude andei fazendo pose com alguns cigarros. Muito poucos, fumados e não tragados se isso é lá possível, no meio de um grupo de pessoas, necessariamente diante de mulheres. Motivos? que se ocupe das explicações a psicanálise. Naqueles tempos, assim como outros rapazes o fazia, andei pensando que manipular cigarros e fazer com eles alguns gestos medidos rendiam pose e algum charme. Dois fatos, porém, vividos com uma mesma pessoa levaram-me a ser um não fumante convicto: um beijo de língua numa garota linda que tinha cheiro e gosto de cigarro; e o que ela me disse pouco depois: que ela não podia viver sem cigarros. Achei então que ela podia viver sem mim, e que eu poderia viver sem ambos, ela e o cigarro.

Houve um tempo em que havia enormes “filas do feijão”, alongadas por momentâneas escassezes desse grão vegetal. Nunca entrei numa fila dessas, mas conversei com pessoas que reclamavam muito por terem passado incontáveis horas em várias filas para comprar feijão, e diziam essas pessoas que não podiam viver sem feijão. Hoje, faço e me farto com uma boa feijoada, e se estiver diante de um feijão comum bem preparado, repito o prato. No entanto, passo dias – e sei que posso passar meses ou anos – sem comer feijão.

Quando vim morar aqui no oeste do Paraná, logo me vi incluso em falantes “rodas de chimarrão”. Se me lembro bem, em quase todas elas, entre tantos assuntos fascinantes sobre os quais se poderia falar, dois eram reiterantes: falar mal da vida das pessoas ausentes da “roda do mate”; e que não se podia viver sem o chimarrão nosso de cada dia; e umas pessoas diziam ter dor de cabeça ou algum mal estar ao se absterem dessa erva. Hoje, quando e se quero, aprecio e gozo o prazer dado por um chimarrão quente, amargo e bem servido, e não esquento a cabeça com o que poderiam estar dizendo de mim todas as vezes que estou fora das rodas de chimarrão.

Sou mais ou menos livre de algumas, ou, de muitas coisas, mas, reconheço-me um dependente. E falo disso em outro momento.