domingo, 13 de julho de 2008

Plantar trilhos

Eram os últimos momentos da última aula daquela noite. Os alunos, o primeiro ano do Ensino Médio.
Como resultado de uma confusão na compreensão de trecho de um texto que havíamos acabado de ler, estávamos em acalorada conversa sobre a diversidade de sentidos dados pelas preposições. Lá no fundo da sala, apático, estava um aluno que não mostrava o mínimo interesse; nesse e em outros assuntos que vínhamos tratando naquele início de ano letivo. Estávamos pelo meio do primeiro bimestre. O mesmo desinteresse havia em relação a outras disciplinas.
Em um dado momento em que uma aluna dizia ter-lhe “caído a ficha”, pois finalmente entendia a finalidade das preposições, ouviu-se vindo lá do fundo da sala:
- Besteira! Essa baboseira é tudo besteira.
Essas palavras vieram do aluno que se mantinha alheio a tudo. Em seguida, dirigiu a mim o seguinte questionamento:
- Por que estudar? Não é professor? Por que ter tanto conhecimento, se a gente vai morrer mesmo, não é?
Hoje eu tenho certeza de que lhe dei a mais idiota das respostas, pois eu disse:
- Exatamente porque se sabe que a morte é uma certeza, é que devemos procurar sempre por mais conhecimento.
Mal deu tempo de me arrepender de ter-lhe dado essa resposta impensada, ouviu-se o sinal de final das aulas. Os alunos saíram, desejando-me boa semana. O aluno foi dos primeiros a sair, e sequer olhou na minha direção.
Devido a cursos que eu faria, e à agenda de reunião pedagógica, voltamos a nos reunir quase quinze dias depois. Eu já soubera que o aluno do fundo da sala havia desistido de estudar, e fora morar em outro Estado à procura de trabalho. Nunca mais o vi.
Queria ter tido a chance de conversar, de procurar por outros argumentos dar-lhe outros sentidos para a vida, que fazem do Saber algo que não tem preço.
Talvez tudo fosse diferente, se eu tivesse tido a chance de dizer-lhe algo semelhante ao que ouvi, quando vi o filme Sob o Sol da Toscana. Nele, a escritora Frances Mayes, interpretada por Diane Lane, após a separação, decepções e achar-se sem Norte para a vida, quase que num impulso faz uma viagem de poucos dias para a Toscana. Lá, também cedendo a um impulso, acaba comprando uma casa também quase em ruínas. Envolta em muitas surpresas trazidas por sua nova realidade, e em um momento em que quase se desespera ao perceber ter cometido mais um erro, ouve do corretor que lhe vendera a casa, o qual viria a ser um dos seus novos amigos, que, em algum lugar na Suíça, havia uma estrada de ferro que fora construída antes mesmo do surgimento do trem. A quem perguntasse o porquê da estrada de ferro, seus construtores diziam que quando o trem surgisse, a estrada de ferro já estaria pronta.
Talvez, com um argumento semelhante, eu convencesse aquele jovem de que a vida tem para cada um de nós um trem novinho em folha, a cada curvatura do tempo, e o que espera de nós é que sejamos plantadores de trilhos. Apenas isso.

7 comentários:

luiz_homer disse...

é... a gente passa e o conhecimento fica como registrtro da nossa história. intenso, humano, trranscendeental, profundo. beijos!

Ju disse...

ei... esse comentário dee cima (Luiz Homer) é meu!!! é que entrei pela conta do meu irmão!
:D
beijos!

mundo azul disse...

...quantas vezes, poderíamos ter falado algo mais, ou diferente, ou simplesmente, não ter falado... Mas, o que se foi, já foi!

Beijos de luz!

Carla disse...

às vezes as palavras não dizem tudo o que queremos...por vezes é tarde, outras vezes ainda há tempo para resolver a situação
beijos

Iana disse...

A momentos na vida que as palavras não dizem nada e os gestos dizem muito mais...

Mas sei que as vezes temos que fazer as palavras fluirem para dar mais sentindo em certos momentos na vida...

Beijos meu doce amigo e aparece mais vezes em meu cantinho tá, fico muito feliz em ver-te por lá...

Boa semana

Iana!!!

FERNANDA & POEMAS disse...

Olá querido Amigo, adorei o teu texto, quem não erra devido a maneira espontânea de ser... Eu sou uma pessoa assim... com o tempo nós vamos mudando e ficamos mais sensatos... Não te culpes, o destino já tinha trassado o rumo do teu aluno... Beijinhos de carinho e amizade,
Fernandinha

M.C. disse...

Poeta,
O que não foi dito na hora certa pode está sendo dito agora. Neste mundo virtual...nada é impossível!

Bela forma de transmitir a‘curvatura do tempo’.

[um delicado abraço...entre flores amarelas que tu já conheces]