sábado, 9 de maio de 2009

Coisas do reino

Era uma vez um reino, pequeno pelos padrões dos grandes reinos ou impérios. Seu povo tinha tudo para ser um povo feliz, mas, por ter vindo de terras distantes, era um povo sem identidade; perdia-se em semblantes carrancudos, e o que mais queria era sugar as tetas do reino. Os cofres reais estavam abarrotados, pensavam, e diziam.
Seu rei, coroado não fazia muito tempo, vivia angustiado. Tinha muito o que fazer, porque assim o povo o exigia; mas, tudo o que havia nos cofres já estava tudo comprometido, e o rei não podia fazer grandes obras. Seus ministros, talvez por serem novatos na função de ministros, talvez por pensarem ser maiores que o rei, gastavam demais.
De tudo, porém, o que mais estava angustiando o rei, era não poder colocar entre os ministros, nem mesmo em função subalterna a esses, um dos homens do povo ao qual pensava dever muito. Afinal, se coroado era como rei, devia muito a esse homem do povo; assim pensava o rei, que queria recompensar esse homem ofertando-lhe uma das tetas do reino. A maioria dos ministros e, principalmente o Primeiro Ministro - que fazia alguma oposição ao rei -, desafetos que eram desse homem do povo, não concordavam com o rei, e o impediam de ter esse homem na corte.
Para piorar tudo, havia o Primeiro Ministro. Este teria pretendido ser o rei; não o foi por causa das causas do reino que o tornaram Primeiro Ministro.
Este, em suas andanças pelo reino, por não ter carruagem custeada pelo estado, usava a mesma carruagem do rei. Nessas ocasiões, para que o povo não o honrassem mais que ao rei, ia adiante da carruagem o arauto do reino, a dizer: - Não é o Rei! Não é o Rei! E o povo sabia que era o Primeiro Ministro que passava; isso o desgostava, e queria ter do reino a sua própria carruagem. O rei não aprovava, e dizia que os cofres do reino não comportavam pagar por outra carruagem.
Essas não eram as causas maiores do reino, mas eram as causas que mais angustiavam o rei e o seu Primeiro Ministro.
Porém, como nas causas de Estado tudo pode ser arranjado, também as causas da angústia do rei e do Primeiro Ministro foram arranjadas, de tal forma que houve satisfação da parte do rei e de seu principal ministro: um dia, sentaram um diante do outro com a intenção de resolverem a suas angústias, e conversaram.
Resultou dessa conversa que o rei pôde colocar o seu protegido homem do povo sob as tetas do Estado, mesmo que para isso teve que inventar uma nova função pública no reino, e dar a essa nova função um nome pomposo, e o Primeiro Ministro, buscando num dos cantos dos cofres do reino todo o dinheiro que precisasse para comprar a carruagem do Estado que também fosse a carruagem dos seus sonhos.
Então, o povo desse reino continuou a ser um povo sem identidade, e continuou a ser um povo carrancudo que continuou a acreditar que os cofres do reino estavam abarrotados de dinheiro; e a acreditar que os cofres do reino fossem gordas e inesgotáveis tetas. O rei, agora não mais tanto angustiado, tinha na corte do palácio o homem do povo do qual pensava dever muitos favores; e o Primeiro Ministro já não precisava mais dos serviços extraordinários do arauto do reino que lhe fosse adiante anunciando que não era o rei quem passava diante do povo.
Este continuou a viver carrancudo; aqueles a não viverem tão angustiados para sempre, ou enquanto dure o reinado do rei e do seu Primeiro Ministro.

2 comentários:

Zana disse...

Olá amigo de além mar,

Gostei deste teu início...ficarei à espera de mais e mais :)

É sempre bom ler-te ;)

Um beijo de luz e um abraço cheio de Paz

Elena de San Telmo disse...

Hola Evaristo!
Estoy feliz de leerte.
Siempre te recuerdo
Un abrazo
Beijos