quinta-feira, 2 de julho de 2009

Os labirintos de Elza

Parte III

Finalmente eu tinha a mulher com a qual havia sonhado, inteira diante de mim. Era bela, e trazia consigo um maço de rosas de variadas cores, e olhava todas as flores expostas nas bancas da feira com expressivo prazer. Fiquei por alguns instantes perdido em pensamentos, e feliz por tê-la reencontrado.
Eu não poderia perdê-la. Aproximei-me quando ela estava algo pensativa e diante de uma profusão de lírios brancos. Disse-lhe que eram lindos, e ela, sem olhar-me, disse que eram tristes lembranças de morte, e continuou a olhar os lírios, ainda pensativa. Sua voz era envolvente, e no momento eu soube dizer apenas que achava os lírios alegres e assemelhados a barulhentos clarins brancos, e perguntei se ela não ouvia a música. Ela meneou a cabeça e sorriu, dizendo que talvez fosse melhor se fossem assim e, talvez pensando ser eu um vendedor, seguiu adiante parando em uma banca repleta de violetas intensamente coloridas. Eu a segui, aproximei-me, e procurei uma forma de chamar-lhe a atenção. Ela olhou-me. Percebi que fizera uma rápida avaliação de mim e, delicadamente, sorriu.
Fui direto. Disse-lhe rapidamente da vez que a tinha visto; que eu a havia seguido secretamente; do impulso enfim fracassado de entrar também na igreja; e que nos últimos tempos ela povoou os meus pensamentos; e do meu intenso desejo de reencontrá-la, o que acontecia enfim. Enquanto eu falava, pareceu-me que ela intensificava sua avaliação, pois olhava detalhes de mim, procurava algo em meus olhos, e sorria delicadamente. Quando terminei, ela desviou o olhar como se vislumbrasse algo distante, depois, baixou o olhar para as rosas que trazia consigo, e ficou por breve momento pensativa. Por fim, olhou para mim, um pouco triste, pensei, e sorriu levemente sem nada dizer.
Eu, sem temor algum de estar sendo inconveniente, disse-lhe que adoraria ter a oportunidade de um encontro em algum outro momento para conversarmos. Delicadamente ela disse que talvez fosse melhor não, e pareceu-me que dizia isso com algum desconforto, como se em seu íntimo tivesse desejo contrário. Pedi-lhe, então, um número de telefone pelo qual eu poderia entrar em contato, e então teríamos chance de nos falar já em outra circunstância.
Novamente, ela baixou os olhos para as rosas que trazia, e parecia-me que ponderava profundamente. Por fim, disse ser melhor que ela tivesse o meu número de telefone, que ela telefonaria. A uma expressão minha um tanto de angústia e desconfiança de estar fracassando, ela sorriu serenamente e disse que telefonaria. Dei-lhe meu cartão com o telefone do trabalho e da minha residência. Ela o acolheu, olhou-o por alguns instantes, e repetiu que telefonaria. Depois se desculpou, e disse que precisava ir.
Antes que ela se fosse, estendi o braço para a banca, peguei um vasinho com violetas roxas que me pareceram as mais radiantes, e entreguei para ela, acrescentando que era para não ser esquecido. Elza também ficou radiante, agradeceu e, pedindo para que eu não me importasse, apontou para outro vasinho com flores brancas dizendo que ficaria com aquele. Rimos. Elza olhava para o vasinho em sua mão, e pareceu-me estar feliz.
Em seguida, ela disse que telefonaria, despediu-se e se afastou em passadas suaves que nada lembravam as passadas resolutas da primeira vez que a vi. Pouco adiante parou um taxi. Antes de entrar no taxi, talvez na certeza de que eu a acompanharia com o olhar, ela olhou para mim, ergueu o vasinho como a agradecer mais uma vez, e sorriu.
Não sei dizer quantas vezes mais eu veria Elza entrar em um taxi, e desaparecer do meu olhar.

3 comentários:

Marcênia disse...

Da harmonia grega ao kitsch de todos os tempos. Da Mona Lisa à Marilyn de Andy Warhol. Afinal, quem decide o que é e o que não é arte? Todos que tentaram definí-la criaram concepções parciais, limitadas no seu tempo e no seu espaço. Mas, acredito que arte é o que você faz quando, através da sua narrativa, consegue transcrever para o papel a diversidade dos sentimentos humanos.

ww.marcenia.blogspot.com

Uma aprendiz disse...

Ai, ai.... não pareeeeeeeeeeee

To amando. kkkkkkkkkk


beijos

MENSAGENS AO VENTO disse...

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...por onde andara Elza, agora?

Envolvente a sua linguagem descritiva... Gostei muito!


Beijos de luz e o meu carinho...


Zélia (Mundo Azul)

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